Setecentos e noventa anos após Bernardo de Claraval ter pregado, em Paris, no mês de abril de 1146, a 2.ª Cruzada, cujo único sucesso foi a reconquista de Lisboa em outubro de 1147, nascia, a 18 de abril de 1936, o Grupo Amigos de Lisboa (GAL), graças à ação concertada de um grupo muito diversificado de cidadãos, com o objetivo de melhor conhecer e dar a conhecer Lisboa, para preservação das suas matrizes identitárias. Referimos esta efeméride porque a consideramos intencional e subjacente aos principais atos jurídicos da fundação do Grupo: A frota dos Cruzados faz-se ao mar em abril, inicia o cerco a Lisboa em 1 de julho e a tomada solene da Cidade faz-se a 25 de outubro. Do mesmo modo, a Assembleia Geral da constituição acontece a 18 de abril; o registo oficial a 8 de julho; e a eleição dos seus primeiros Corpos Sociais em 25 de outubro.
A primeira Assembleia Geral do GAL teve lugar pela vontade expressa de uma comissão organizadora constituída, entre outros, pelos irmãos Alberto e Eugénio Mac-Bride, Augusto Vieira da Silva, Gustavo de Matos Sequeira, João Pinto de Carvalho (Tinop), Leitão de Barros, Levy Marques da Costa, Luís Pastor de Macedo, Norberto de Araújo e Rocha Martins. A mesma Assembleia elegeu os primeiros órgãos sociais, ficando como Presidente da Junta Diretiva, Augusto Vieira da Silva e como Secretário-Geral Luís Pastor de Macedo. Destacadas figuras da vida da Cidade foram, ao longo da história do GAL, presidentes da sua Junta Diretiva, tais como Reinaldo dos Santos, Celestino da Costa, Fernando de Freitas Simões, Eduardo Neves e João Cândido de Oliveira.
O Grupo, ainda hoje celebra estas datas como memória da sua fundação, com cerimónias elaboradas ou gestos simples, conforme as circunstâncias. Os Estatutos, ainda em vigor, definem os objetivos iniciais:
a) Defender o património artístico monumental e documental olisiponense;
b) Contribuir para o estudo e solução dos problemas do urbanismo e expansão de Lisboa;
c) Dar o seu parecer, quando solicitado, a instituições oficiais e particulares, que se ocupem da administração, da defesa e do progresso da Cidade.
Em 1864 surgira a antecessora da atual Associação dos Arqueólogos Portugueses, cujo programa abrangia todo o país. A sua secção de Arqueologia Lisbonense, a partir de 1925 chamada Secção de Estudos Olissiponenses, vai desenvolver, até à sua extinção em 1933, uma atividade quase frenética, no estudo e intervenção científica e cívica em defesa da Cidade, junto da CML, junto de ministérios e de instituições públicas e privadas. Esta atividade por parte de uma secção ultrapassava os padrões normais comportamentais de uma associação de caráter científico e levantavam-se vozes de sócios defendendo novas opções.
Já em 1937, no jornal O Século, Pastor de Macedo chamava a atenção para a necessidade de se criar um grupo de opinião, de base científica, para defesa da Cidade. Em 1936, numa reunião de sócios, irá dizer que se pensara na necessidade da criação de um grupo de «Amigos de Lisboa», mas não definira as suas funções. As administrações municipais, mudando de três em três anos, não garantiam a continuidade de um programa de intervenção, pois mudavam frequentemente as determinações anteriores. Estando a Cidade a modificar-se muito rapidamente, as modificações resultavam muitas vezes de determinações autoritárias, que a população, não as compreendendo, ou as olhava com indiferença ou com franca oposição. Faltava, pois, «um corpo de doutrina e um volume de opinião científica sobre a vida da Cidade». Acabará por definir a função do grupo “Amigos de Lisboa” da seguinte maneira:
«Quanto a mim, está aqui a principal razão da essência do grupo dos “Amigos de Lisboa”. Competir-lhe-á esclarecer e educar a população, pôr em confronto a vida de outras cidades, fazer a propaganda dos princípios modernos da administração municipal, dos planos renovadores, preparar os interessados na defesa da colectividade contra o interesse descabido de cada um, fazer ressaltar as boas iniciativas para que sejam combatidas, em conclusão, transformar a “Opinião Pública” em verdadeira “Consciência Pública”».
E dirá mais adiante ao referir o crescente interesse pela História de Lisboa:
«Quantas Exposições de interesse olisipógrafo não poderão ser promovidas, quantas evocações históricas não poderão ser realizadas, quantos conhecimentos não poderão ser provocados para ilustração do Povo? E sobre propaganda quanto não há ainda a fazer, como seja, por exemplo e simplesmente, mostrar Lisboa aos próprios lisboetas?»
Convém lembrar que «esta missão pedagógica», que ainda hoje é a trave-mestra do nosso trabalho, e o seu carácter de extroversão, afasta o GAL, quer dos movimentos associativos quase exclusivamente elitistas e fechados como Academias, Sociedades, Associações e Grémios, quer das Associações de Cultura e Recreio de carácter populista. O próprio nome escolhido – “Grupo” – empresta à instituição (embora esta assuma a forma jurídica de associação cultural sem fins lucrativos) um carácter dinâmico e lúdico, embora assente numa sólida base científica. Não havendo ao tempo (se é que hoje há!) um meio de comunicação entre uma aristocracia do conhecimento e o homem comum, o GAL funcionou e funciona como uma assumida transmissão, de modo que se crie a “Consciência Pública”, tão grata a Pastor de Macedo.
Este carácter simultaneamente erudito e lúdico, que referimos, reflete-se no próprio logótipo. É totalmente inspirado nas Armas de Lisboa, mas em vez de ter um rígido tratamento heráldico, o espírito é outro: o barco é mais curvo, os corvos são mais gordinhos, e bem-dispostos e seguram flores nos bicos, enquanto outras flores brotam da verga e animam o mar. O autor foi o nosso sócio Almada Negreiros, que tão bem interpretou este espírito do Grupo, mas trocou a alternância das peças do gironado.
Como eruditos que eram, os fundadores do GAL estão na origem de um cultismo, que se irá multiplicar em neologismos, ao privilegiar a grafia Olisipo, usada pelos romanos para o nome pré-romano de Lisboa, e recusando o facilitismo fonético da forma Olissipo. Com efeito, o S intervocálico em latim lê-se S e não Z. Em todas as atas, documentação sobrevivente e no seu Boletim Olisipo, o GAL irá usar este cultismo e todas as formas dele derivadas, nomeadamente a palavra Olisipografia.
Na sua missão de dar a conhecer Lisboa, o GAL passou a editar, com carácter trimestral, um boletim informativo, sobretudo destinado aos sócios, segundo os Estatutos, contendo a informação sobre a vida interna e externa do Grupo, mas incluindo também trabalhos de investigação de caráter erudito. Esta publicação irá subitamente transformar-se com as características capas, desenhadas por Almada Negreiros de janeiro de 1944 a outubro de 1950, período a partir do qual os conteúdos são mais ricos e diversificados e as capas com imagens ou desenhos, são também instrumentos pedagógicos. O boletim adaptou-se aos tempos, e ainda hoje é publicado, mas transformou-se numa revista científica de carácter cultural, relegando para segundo plano a informação interna expressa no Relatório e Contas de exercício anual que a Junta Diretiva apresenta à Assembleia Geral e por ela é aprovado.
O perfil muito diversificado de fundadores, sócios e dirigentes, desde 1936, emprestou ao Grupo uma dinâmica permanente no conhecimento da Cidade, que os serviços municipais só recentemente conseguiram atingir, dispondo de agentes técnicos e humanos excecionais, secundados num outro plano pela EGEAC. A CML constituiu sempre forte apoio do GAL, nem sempre do mesmo modo, nem sempre com o mesmo empenho. Em 1956, por ocasião do 20º aniversário do GAL, e em reconhecimento pelos serviços prestados a Lisboa, a CML atribuiu-lhe a medalha de Ouro da Cidade. Em 2020 foi celebrado o protocolo formal de colaboração institucional e, em 2022, um segundo protocolo no âmbito do projeto «Olisipógrafos. Os Cronistas de Lisboa». Em reconhecimento pelo crescente apoio da CML, o GAL nomeou-A seu Sócio Honorário em 2017. Já em 1980, o Estado Português considerou o GAL “Instituição de Utilidade Pública”.
As mudanças de gosto e as mudanças de sede, assim como as transformações da Cidade, determinaram a adaptação do GAL, cujas atividades se multiplicaram em exposições (fotografia, filatelia, gravura, pintura, Ex-Libris, efemérides, etc.); colocação de placas comemorativas; edições de grande qualidade; concertos; noites de fados; projeção de filmes sobre Lisboa; jantares temáticos precedidos de conferências, etc. Simultaneamente, intervinha publicamente sobre matérias como o restauro do Castelo de São Jorge e da Casa dos Bicos; inquérito sobre «A Cor de Lisboa»; perfil e urbanização da Avenida da Liberdade; preservação do parque Ventura Terra; Templos de Lisboa; restauro de chafarizes: «Observatório de Lisboa»; elevador do Borratém; extensão do Museu Antoniano, etc. O GAL integrou júris das Festas da Cidade e das Marchas Populares, de Prémios Municipais e de Comissões. Faz parte atualmente da Comissão Municipal de Toponímia, das “Lojas com História” e do “Conselho do Museu de Lisboa”.
O GAL dispõe de site próprio, no qual divulga a sua história, missão, atividades passadas e futuras e onde cidadãos interessados em fazerem parte do Grupo podem manifestar essa intenção preenchendo uma ficha de sócio: https://www.amigosdelisboa.com.
A localização periférica da atual sede, com acesso problemático, trouxe novos desafios e adaptações, fazendo que diminuísse a intervenção pública e fosse privilegiada a missão pedagógica do GAL de “ensinar Lisboa”. Têm-se, assim, realizado concursos, jornadas, colóquios, visitas de estudo, passeios de rua, palestras na sede e colaboração com terceiros. Fiel à tradição lisboeta, o GAL vem realizando anualmente o “Concurso das Quadras Populares de Sto. António” para preservação do património imaterial da Cidade. Para além de aumentar significativamente o número de títulos da sua biblioteca, mesmo durante a Pandemia, o GAL manteve-se muito ativo e, salvaguardando o seu programa pedagógico, e está a reorganizar o seu arquivo, no sentido de o tornar acessível a investigadores.
Faz parte da matriz identitária do GAL uma saudável visão da vida, na qual existe um fator mnemónico fortemente afetivo, que partilha com terceiros. Deste facto resulta o seu gosto por rituais: comemorações do dia 18 de abril e 25 de outubro; solenidades de São Vicente e Santo António; merenda de São Martinho e festas de Natal; almoço convívio em junho/julho antecedido por missa evocativa de sócios vivos e falecidos e, marcando bem a sua ligação com a CML, a apresentação formal de cumprimentos ao Presidente da CML e Vereador do Pelouro da Cultura, por ocasião do início de mandato. Todos estes atos refletem a memória subjetiva à vida da Cidade, envolvendo nela os sócios que olham o GAL como extensão da sua família e partilham deste espírito transtemporal que o transforma num mundo de comunhão com a Cidade e com os que antes de nós A amaram e defenderam.
Salete Salvado
Dezembro 2022
Bibliografia:
Boletim Olisipo, 1ª e 2ª séries.
Revista Municipal, 1ª e 2ª séries.
Arquivo do GAL