Ação Cultural da CML

Na segunda metade da década de 1920, foi possível antever uma mudança de direção nas políticas culturais da Câmara Municipal de Lisboa (CML) através de iniciativas avulsas, como a reorganização das bibliotecas municipais e a aquisição de parte do espólio de Júlio de Castilho, antevendo uma edição acrescentada da sua obra Lisboa Antiga - Bairros Orientais.

O momento de charneira ocorrerá a 11 de maio de 1933, data da proposta do vereador Luís Pastor de Macedo para a criação de um pelouro dos serviços culturais. Considerava o proponente que, entre outras funções, este pelouro deveria «estimular o gosto pela Arte e pelas Letras, auxiliar os artistas [...], adquirindo por encomenda as suas produções, e distribuir prémios aos melhores trabalhos literários de caracter olissiponense [e] formar um fundo especial de olissipografia na Biblioteca do Palácio Galveias.» (1) Para o efeito, Pastor de Macedo recrutou alguns dos que desde o início do século estudavam a história de Lisboa de forma essencialmente lúdica, nomeadamente Augusto Vieira da Silva e Gustavo de Matos Sequeira. Embora não tenha criado, de forma oficial, a figura do cronista da cidade (à semelhança do que se verificava em Madrid e Paris), procedeu a uma estratégia de profissionalização informal do historiador da cidade (o olisipógrafo), assente na exaltação e divulgação da sua figura e obra através da publicação de dezenas de estudos e da organização de conferências para um vasto público, num processo que ia ao encontro da ideia de Política do Espírito, enunciada pela primeira vez por António Ferro em 1932. Os olisipógrafos passaram a ser considerados especialistas e a sua opinião era considerada na tomada de muitas das decisões sobre o futuro da cidade. Chamados para a composição da maioria das comissões históricas, patrimoniais e literárias, influenciaram, como poucos, o panorama cultural de Lisboa do segundo terço do século XX.

Logo a partir década de 1930, o Pelouro dos Serviços Culturais foi responsável pela publicação (ou republicação) de muitas das obras fundamentais de olisipografia e da Revista Municipal, em cujas páginas se publicaram centenas de estudos históricos da cidade. Foram também enunciadas as ideias para a criação de dois elementos considerados indispensáveis para o desenvolvimento da olisipografia: o Curso e o Gabinete de Estudos Olisiponenses. A ideia do primeiro foi originalmente apresentada por Norberto de Araújo num artigo publicado a 31 de agosto de 1934 no Diário de Lisboa, no qual alude à «ansiedade enorme [manifestada por uma geração nova de estudiosos de Lisboa] em reforçar os seus conhecimentos, em completar as suas bases, sem as quais o estudo olissiponense se torna dificilíssimo, se não estéril. […] A esta ansiedade de “saber Lisboa” […] falta um requisito: orientação.» (2) Para o cumprir, considerava necessária a criação de uma cadeira de estudos olisiponenses na Faculdade de Letras de Lisboa, para cuja regência propôs os nomes de Augusto Vieira da Silva ou de Gustavo Matos Sequeira, segundo «um plano firme [que], ramificando-se em várias especialidades subsidiarias […], criaria, primeiro alunos, e depois mestres.» (3) A ideia teve a imediata aceitação de Pastor de Macedo e de João Correia, o então reitor da Faculdade de Letras, tendo-se envidado esforços para o seu arranque a breve trecho. No entanto, foi preciso esperar mais de uma década até se tornar realidade. Entre 1945 e 1957, o curso foi ininterruptamente lecionado por dois professores da faculdade (Orlando Ribeiro e Mário de Albuquerque) e não por olisipógrafos, conforme havia sido originalmente sugerido por Norberto de Araújo.

Por seu turno, o Gabinete de Estudos Olisiponenses foi criado em 1939 com o objetivo de sistematizar e reunir todos os elementos bibliográficos, iconográficos ou documentais respeitantes à vida de Lisboa. Idealizado como um elemento-chave de toda a estratégia de desenvolvimento dos estudos de Lisboa, caber-lhe-ia auxiliar todos os que pretendessem dedicar-se ao tema. Uma vez mais, tardou a sua consubstanciação plena, mesmo contando com o impulso dado pela aquisição da Coleção Vieira da Silva, em 1954.

Embora os serviços culturais da CML tenham continuado a incentivar o desenvolvimento dos estudos de Lisboa, a saída de Luís Pastor de Macedo da vice-presidência da autarquia em 1959 marcou o fim de uma era na ação do pelouro dos serviços culturais e a perda do seu principal impulsionador.
 
(1) Sessão da Comissão Administrativa realizada em 11 de maio de 1933. Boletim da Câmara Municipal de Lisboa, Ano VII, nº 331, p. 25.
(2) Diário de Lisboa, nº 4236 (31 agosto 1934) p.1.
(3) Ibidem.     
 
Tiago Borges Lourenço
27.03.2023