Cronistas e Percursores

Devido à sua importância política, económica e cultural a cidade de Lisboa usufruiu e ainda usufrui de uma presença assídua na historiografia portuguesa, que ultrapassa largamente os estudos circunscritos à cidade. No que concerne especificamente à produção literária dedicada a Lisboa e realizada antes da obra inaugural da olisipografia, a Lisboa Antiga (1879) da autoria de Júlio de Castilho (1840-1919), podemos dividi-la grosso modo em quatro categorias distintas: narrativas lendárias; crónicas; corografias ou registos estatísticos; artigos de cariz histórico-literário. De seguida, caracterizamo-las em traços gerais.

Todas as grandes cidades têm na sua génese um mito das origens que lhes confere antiguidade e as inscrevem numa linhagem heroica ou sagrada. Lisboa, naturalmente, não foi exceção. A fundação de Ulixbona ou Olissipo foi associada, desde os primórdios, ao mítico herói Ulisses que depois de conquistar Troia aportou e conquistou Lisboa. Esta tradição remonta à historiografia greco-romana legada pelos seus diversos geógrafos e historiadores e às referências insertas na Crónica do Mouro Rasis (séc. X), cujas fontes persuadiram o testemunho atribuído ao cruzado inglês Osberno (séc. XII), a propósito da Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147 e que aqui retomamos: «[…] diz-se, por isso, que Lisboa é uma cidade fundada por Ulisses» (Conquista de Lisboa aos Mouros…, 1935: 40). Se num primeiro momento, o mito da fundação se incluiu na narrativa das origens ancestrais da cidade, num segundo momento a lenda ganhou maior dimensão e inscreveu-se na epopeia literária da nacionalidade, na medida em que Ulisses (um navegador) pressagiou o destino coletivo e vitorioso da nação, plasmado nas conquistas realizadas pelos diversos descobridores ao serviço da coroa portuguesa (FERNANDES, 1985: 146). Com o desenvolvimento da ciência histórica do século XIX, esta ideia começou naturalmente a ser problematizada e remetida para o campo restrito das narrativas lendárias.

Relativamente à segunda categoria (crónicas), salientamos a crónica de Damião de Góis intitulada Urbis Olisiponis Descriptio (1554). Nesta obra, o cronista descreveu a cidade de Lisboa e nomeou-a a Rainha dos Oceanos, rememorando a embarcação vitoriosa que dela partiu rumo à Índia (1498). Saliente-se que a crónica, tal como descreveu Rafael Bluteau (1638-1734) no Vocabulario Portuguez e Latino, «deriva do grego Chronos, Tempo. História em que se contam os sucessos conforme a ordem dos tempos» (BLUTEAU, 1712: 618). Esta definição é essencial e esclarece-nos acerca das caraterísticas e utilidades das crónicas, que têm a finalidade de informar e narrar os principais acontecimentos de um reinado, de uma cidade ou de um episódio selecionado. Após a escolha da temática central, toda a narrativa se desenvolve em seu torno e é estruturada com base na sucessão cronológica dos acontecimentos. Na verdade, o tempo é a medida e o elemento ordenador da narrativa. É o tempo que arruma e estrutura a exposição dos acontecimentos. Por esta razão, Alexandre Herculano considerou que Fernão Lopes foi «o primeiro que pôs em caronyca, isto é, em ordem as estórias da primeira dinastia dos reis portugueses», pois «até aí havia apenas algumas memórias espalhadas, alguns breves compêndios dos sucessos públicos» (HERCULANO, 1886: 7). Acresce a esta característica o facto de a crónica exaltar e engrandecer o sujeito central da ação, seja ele uma pessoa, um acontecimento ou um lugar.

Em conformidade com estas premissas Damião de Gois escreveu o seu texto apologético dedicado à cidade de Lisboa, pois como o próprio assumiu na introdução «nesta descrição de Lisboa, tudo quanto consegui investigar acerca da origem da própria urbe e da sua beleza, procurei pintá-lo com o pincel mais delicado que foi possível» (GÓIS, 2009: 28). Por certo, uma das grandes motivações que presidiu à realização deste trabalho foi a exaltação e superiorização de Lisboa face à grande rival, Sevilha. O cronista, guiado por estes objetivos, empolou a antiguidade e origem mítica da cidade, derradeira prova da sua importância desde tempos imemoriais.

A ordem da narrativa, sem surpresa, obedeceu ao critério cronológico com início em Ulisses. Depois de inscrita a fundação da cidade na mitologia greco-romana, Damião de Gois exaltou a conquista de Lisboa aos Mouros sob o comando do destemido monarca D. Afonso Henriques. Uma vez mais, a narrativa enfatizou o endeusamento da cidade, ao privilegiar a sua proteção mítica e divina, pois «nem faltou até que alguns, por causa de relatos de milagres, fossem tidos na conta de santos» (GOIS, 2009: 41). Traçada a história que fundamentava as bases míticas e a aura divina da cidade, a exposição focou-se doravante na descrição dos seus principais sítios e edifícios construídos até ao reinado de D. João III (1521-1557), a quem o autor dedicou a obra.

A terceira categoria, identificada por corografias e registos estatísticos, remonta aos diversos estudos de natureza estatística e administrativa, cujos dados são importantes para o conhecimento da história de Lisboa e, regra geral, foram compilados no seio da esfera eclesiástica. A informação recolhida foi sistematizada por freguesias e versou sobre a contabilização do número de vizinhos, rendimentos, capelas e confrarias, entre outras informações úteis para o conhecimento demográfico, económico e social da cidade. A título de exemplo citamos João Brandão (1552), Cristóvão Rodrigues de Oliveira (1554) e D. Rodrigo da Cunha (1642), entre tantos outros.

Resta-nos analisar a quarta categoria: os artigos de cariz jornalístico-literário insertos nos diversos periódicos publicados ao longo da centúria de oitocentos. Trata-se de um momento em que a imprensa informativa de grande divulgação se distanciou dos temas essencialmente oficiais, restritos à corte régia e aos acontecimentos importantes do Estado, e abriu-se a um leque variado de temas que passou a interessar a um público cada vez mais alargado. Em resultado, apareceram os jornais e as revistas culturais e literárias, amplamente ilustradas, satisfazendo a curiosidade e despertando o interesse crescente do leitor masculino e feminino. As novas temáticas foram potenciadas pelo recurso de um novo género literário que aliou o formato jornalístico à metodologia histórica, tornando a mensagem mais apelativa e próxima do leitor.

Os artigos sobre Lisboa constituíram-se como os derradeiros percussores da olisipografia, encontrando-se sobretudo em O Panorama (1837-1868), na Revista Universal Lisbonense (1841-1859), no Archivo Pitoresco (1857-1868), no Boletim de Architectura e de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes (1865-1900)[1] e n’O Occidente (1878-1915). Nestes jornais e revistas deu-se enfoque à história, à arqueologia, à literatura, às ciências, à antropologia, ao romance e às belas-artes. No que respeita a Lisboa, salientamos a importância conferida à defesa dos seus monumentos, costumes e tradições.

A seleção e enfoque temático empregue nos diversos verbetes dedicados a Lisboa insere-se no novo movimento cultural do romantismo que viu na educação um dos instrumentos mais eficazes para a construção de uma nova sociedade que devia valorizar, divulgar e exaltar o passado e os seus monumentos pátrios (CATROGA, 1993: 545). Os intelectuais oitocentistas defenderam que a instauração de uma nova ordem política e económica requeria novas formas de interiorização do poder e carecia de uma opinião pública forte e esclarecida, capaz de defender a necessidade de refundar a Nação. Em resultado, a história assumiu um papel decisivo na formação das novas gerações e elites (TORGAL, 1996).

É no seio destes valores e intenções programáticas que temos de enquadrar os artigos incluídos no jornal O Panorama e dedicados a Lisboa. Em conformidade com a ambiência cultural e os desígnios do jornal, estes verbetes testemunham a cultura romântica e o valor conferido à história e aos monumentos, enquanto lugares de memória e símbolos identitários que urgia preservar, valorizar, conhecer e divulgar. Neste jornal publicou-se também, e com enorme sucesso, Quadros Históricos de Portugal, de António Feliciano de Castilho (1800-1875), cujo projeto visou a divulgação da história nacional sob o olhar saudosista e patriótico e prefigurou a importância da perspetiva histórica adotada nos romances e nos ensaios historiográficos. Daqui em diante, a história preencheu definitivamente o espaço dos periódicos.

O Panorama e o Archivo Pittoresco foram dois bons exemplos da tradição e metodologia histórica, jornalística e literária na centúria de oitocentos, cristalizando ambos a tendência histórico-cultural que pugnou pela junção de duas áreas: a história e a imprensa (TENGARRINHA, 2013). No caso do Archivo Pittoresco, tomemos como guia os artigos de Inácio de Vilhena Barbosa (1811-1890) que compõem o seu inovador Roteiro de Lisboa.

Vilhena Barbosa escolheu como tema central o estudo de edifícios ou equipamentos históricos, ordenados com base no critério tipológico, entre eles, palácios, igrejas, conventos, quintas, castelos, entre outros. E dentro de cada tipologia selecionou os edifícios ou equipamentos que considerou importantes, pela sua qualidade artística e técnica e pela sua simbologia política e social. Todos eles foram organizados em torno da indispensável contextualização histórica, apresentada segundo o critério cronológico dos acontecimentos. Um dos grandes méritos deste atualizado trabalho, reside na maior acuidade metodológica, com recurso a notas de rodapé para as referências bibliográficas e maior aprofundamento de algumas matérias. De igual modo, houve o cuidado de esvaziar a narrativa dos exageros apologéticos, amplamente utilizados pela historiografia anterior para sobrevalorizar acontecimentos ou personagens importantes da história de Portugal. O próprio Júlio de Castilho reconheceu a importância de Inácio de Vilhena Barbosa para o seu percurso e para os estudos de Lisboa.

Destacamos igualmente a Revista Universal Lisbonense e os importantes artigos dedicados a Lisboa, sobretudo os que traçaram a apologia da cidade antiga versus cidade moderna e que – seguramente – inspiraram o trabalho e orientação temática de Júlio de Castilho e demais olisipógrafos. Ao longo destes verbetes, escritos por António Feliciano de Castilho, abordaram-se as alterações em curso na cidade de Lisboa e o desaparecimento irremediável do seu património secular.

Os periódicos assumiram-se, assim, como instrumentos eficazes na transmissão do conhecimento e na educação da população e desempenharam uma forte componente cívica e pedagógica que aliou à capacidade de comunicação pública (jornalística) uma indiscutível cultura histórica. Foi, aliás, o reconhecimento do potencial da história divulgada na imprensa periódica e dos seus múltiplos temas e leituras que motivou o trabalho dos primeiros olisipógrafos, formando-os e incentivando-os a enveredar por investigações de cariz multifacetado, orientadas em torno da história e costumes da cidade de Lisboa e destinadas a um público cada vez mais vasto.

[1] Atente-se que este Boletim é composto na totalidade por 13 séries e ainda se encontra em circulação. Para o século XIX publicaram-se 3 séries: Archivo de Architectura Civil: Jornal dos Architectos e Archeologos (1865-1867); Boletim Architectonico e d’Archeologia (1874-1890); Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes (1894-1900).

Raquel Seixas
Maio de 2023


Bibliografia
BLUTEAU, Raphael – Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, vol. II. Disponível em: https://purl.pt/13969

BRANDÃO, João – Estatística de Lisboa de 1552 [manuscrito]. BNP, COD. 679
 
BRITO, Ricardo – O Panorama, Lisboa, 1837-1868. Dicionário de Historiadores Portugueses, Sérgio Campos Matos (coord.). Disponível em:  https://dichp.bnportugal.gov.pt/index.htm

CATROGA, Fernando – Romantismo, literatura e história. História de Portugal, Luís Reis Torgal e João Lourenço Roque (coord.). Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, vol. V.

Conquista de Lisboa aos Mouros (1147) narrada pelo cruzado Osberno, testemunha presencial. Tradução do latim de José Augusto de Oliveira. Lisboa: CML, 1935, p. 40.

CUNHA, Rodrigo da – Historia Ecclesiastica da Igreja de Lisboa: vida e acçoens de seus prelados, e varões eminentes em santidade, que nella florecerão. Lisboa: Manoel da Silva, 1642. Disponível em https://purl.pt/12033

FERNANDES, R. M. Rosado – Ulisses em Lisboa. Euphrosyne. Lisboa: Centro de Estudos Clássicos, (1985), vol. 13 pp. 139-161.

GÓIS, Damião de – Descrição da cidade de Lisboa. Tradução do texto latino de Raúl Machado. 5ª ed. Lisboa: Frenesi, 2009.

HERCULANO, Alexandre – Controvérsias e Estudos Históricos. Opúsculos. Lisboa: Bertrand, 1886, tomo V.

OLIVEIRA, Cristóvão Rodrigues de – Sumario em que brevemente se contem alguas cousas assi ecclesiasticas como seculares que há na cidade de Lisboa. Lisboa: Germão Galharde, 1554. Disponível em https://purl.pt/14435

TENGARRINHA, José – Nova História da Imprensa Periódica Portuguesa, das origens a 1865. Lisboa: Temas e Debates - Círculo de Leitores, 2013.

TORGAL, Luís Reis – Antes de Herculano. In História da História em Portugal sécs. XIX-XX, Luís Reis Torgal, José Maria Amado Mendes, Fernando Catroga (coord.). Lisboa: Círculo de Leitores, 1996.