Sobre Olisipografia

Nascida no século XIX da confluência de diversos ensejos, a Olisipografia corresponde a uma moderna fase dos estudos da história de Lisboa, "realizad[a] de acordo com as regras da metodologia histórica" (BRANCO, 1977: 81). O momento definidor do seu surgimento terá ocorrido em 1879, com a publicação do primeiro volume de Lisboa Antiga, de Júlio de Castilho (1840-1919). Nesta obra, que pela primeira vez extrapola o âmbito da crónica, do roteiro ou do simples estudo individualizado do património edificado, desenvolve-se uma análise histórico-social de conjunto de uma área da cidade, sustentada em fontes primárias e secundárias de época, mas também ainda em experiências vivenciadas pelo próprio ou testemunhos coevos. É igualmente relevante o facto de Castilho o ter feito em livro e não em fascículos das revistas científico-literárias, tornando o acesso mais amplo e imediato. Embora até aos derradeiros anos do século XIX Castilho tenha trilhado um caminho solitário, nos inícios da centúria seguinte reuniu um conjunto de discípulos que com ele partilharam a paixão por Lisboa e pela sua história.

No início do século XX, já em plena República, consolidou-se uma nova geração de estudiosos da cidade, a maioria dos quais sócios da Associação dos Arqueólogos Portugueses, em cujo seio se passou informalmente a cunhar o termo olisipógrafo, inicialmente aplicado a Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962) e a Augusto Vieira da Silva (1869-1951). A estes dois estudiosos, juntar-se-iam, entre outros, Norberto de Araújo (1889-1952) e Luís Pastor de Macedo (1901-1971), compondo um pequeno mas impactante corpus de textos sobre a história da cidade nos seus diversos aspetos. Em 1933, a criação do pelouro dos serviços culturais da Câmara Municipal de Lisboa e o aproveitamento político-ideológico que dela fez, deu à Olisipografia uma dimensão inesperada, no seguimento de uma estratégia que assentava no desenvolvimento dos estudos históricos da cidade e das figuras que os desenvolviam. É, de resto, neste ano que Pastor de Macedo, na qualidade de vereador da Câmara Municipal de Lisboa, usou pela primeira vez a palavra Olisipografia para designar o conjunto das obras escritas sobre a cidade, termo que rapidamente entrou no léxico cultural da cidade. Neste processo, os olisipógrafos foram transformados em embaixadores culturais da capital, chamados a orientar visitas, a participar em programas de rádio, a presidir a comissões e a escrever para o grande público.


Apesar do entusiasmo, nunca se chegou a um consenso claro sobre o conceito de Olisipografia. Para uns, era quase uma ciência; para outros, um género literário. Porém, quando se tentou criar uma cadeira de Estudos Olisiponenses na Universidade de Lisboa, os académicos recusaram que fosse entregue aos olisipógrafos tradicionais, alegando a sua falta de rigor científico. O curso acabou por ser lecionado por professores da Faculdade de Letras, mas nunca cumpriu o objetivo de formar novos cultores da Olisipografia. Esta divisão entre investigadores universitários e os cultores de uma escrita mais livre, de cariz eminentemente divulgativo e muitas vezes arredada de grandes questões teóricas tem marcado o debate desde então.

Ao longo do século XX foram surgindo tentativas de melhor definir o conceito. Em 1954, um dicionário descrevia-o como conjunto dos escritos eruditos ou literários sobre Lisboa e, em 1978, Fernando Castelo Branco (1926-2025) defendeu a Olisipografia como um ramo da História, sujeito às mesmas regras de método e rigor. Outros, como José Sarmento de Matos (1946-2018), preferiram sublinhar a dimensão mais livre e conversada deste género. Para ele, a Olisipografia era “uma história feita como quem passeia” (Matos, 1994, pp. 10), que mistura urbanismo, arquitetura, pessoas e mitos, com paixão e proximidade. E, mais recentemente, foi proposta a distinção entre Olisipografia clássica, divulgativa, literária, e Olisipografia científica, mais metodologicamente orientada e desenvolvida maioritariamente em meio académico, permitindo incluir sob o mesmo chapéu Júlio de Castilho e os historiadores universitários contemporâneos que se dedicam aos estudos históricos de Lisboa.
Sem nunca se ter cabalmente fechado, o conceito foi-se adaptando, ressurgindo em novos contextos e mantendo uma identidade própria. Os dicionários atuais reconhecem Olisipografia como um estudo cientificamente orientado a respeito de Lisboa, abrangendo dimensões históricas, artísticas e urbanísticas.

Olhando para esta longa história, percebe-se que sempre foi um espaço de encontro entre diferentes formas de falar sobre Lisboa. Uns preferiram a erudição, outros a narrativa poética, outros ainda a metodologia científica. Uns escreveram como historiadores, outros como cronistas ou jornalistas. Todos, porém, partilharam o mesmo objeto de paixão: a cidade.

A dificuldade em definir rigorosamente o conceito talvez se explique por essa diversidade. Lisboa pode ser estudada de mil maneiras e a Olisipografia é, acima de tudo, esse mosaico que resulta do cruzamento de distintos olhares.

Tiago Borges Lourenço | Raquel Seixas
Set. 2025


Bibliografia:
BRANCO, Fernando Castelo (1978) -  A Olisipografia no Conspecto da Historiografia Portuguesa de 1850 a 1950. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1978.

LOURENÇO, Tiago Borges; SEIXAS Raquel - Olisipografia. Em torno de um conceito. In Historiografia das Cidades. Lisboa: FCSH – Instituto de História da Arte / Câmara Municipal de Lisboa, 2025, pp. 178-211. Disponível em:
 https://geo.lisboa.pt/fileadmin/geo/difusao/Publicacoes/historiografiacidadescompleto.pdf

MATOS, José Sarmento de - Uma Casa na Lapa. Lisboa: Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 1994.