Olisipografia Clássica

Em 1879, com a publicação da Lisboa Antiga, Júlio de Castilho (1840-1919) deu o mote para a afirmação de uma disciplina não académica dedicada em exclusivo à história da cidade de Lisboa, a Olisipografia. Esta obra corresponde ao primeiro ensaio histórico sobre Lisboa, publicado em livro e liberto de encomendas e discursos oficiais. A ideia da conceção da Lisboa Antiga resultou da investigação realizada por Júlio de Castilho para a biografia de seu pai, António Feliciano de Castilho (1800-1875), intitulada Memórias de Castilho e cuja aturada investigação «abriu caminho para a sua grandiosa obra de ressurreição da história da cidade» (CASTILHO, 1954: XII).

O próprio Júlio de Castilho, no prefácio do Bairro Alto, assumiu que «a história de Lisboa esta[va] por escrever” pois “a não ser escritos dispersos e incompletos, embora eruditos e valiosos, nada temos coordenado e deduzido» (CASTILHO, 1879: III-IV). Consciente deste vazio, o autor propôs-se a estudar os bairros da cidade de Lisboa, sob a perspetiva histórica, arqueológica, artística, literária e genealógica. Em cumprimento deste desígnio publicou o Lisboa Antiga – O Bairro Alto de Lisboa (1879), Lisboa Antiga - Bairros Orientais (1884-1890) e A Ribeira de Lisboa (1893).

A sistematicidade e inovação da Lisboa Antiga no panorama livreiro português ecoou na sociedade letrada lisboeta e plantou a semente e o interesse crescente noutros intelectuais, que procuraram e recorreram aos ensinamentos e conhecimentos do mestre Júlio de Castilho, seguindo-lhe o rasto. Referimo-nos a José Joaquim Gomes de Brito (1843-1923), João Pinto Ribeiro de Carvalho “Tinop” (1858-1936), Augusto Vieira da Silva (1869-1951) e Gustavo Matos de Sequeira (1880-1962). Todos tiveram a particularidade de direcionar as suas pesquisas e contribuições para áreas de conhecimento específico, só vagamente afloradas por Júlio de Castilho.

Tinop elegeu como principal campo de trabalho o estudo dos costumes e tradições populares da cidade, tais como o fado e outras canções populares, as festas e bailes e os cafés. Ademais, teve o cuidado de reunir diversos testemunhos da sociedade lisboeta oitocentista, complementados com recolha documental e compilados postumamente na obra Lisboa de Outrora (1938-1939). Gomes de Brito desenvolveu uma pesquisa e análise aprofundadas da toponímia de Lisboa, continuadas por Luís Pastor de Macedo (1901-1971) que o considerou «o criador dos estudos toponímicos [de Lisboa]» (MACEDO, 1944: 146). Augusto Vieira da Silva dedicou uma parte considerável da sua carreira a estudar as cercas defensivas de Lisboa. Este importante trabalho foi realizado com recurso a uma metodologia apurada e apreendida nas cadeiras da Escola do Exército, onde concluiu o curso de engenharia-militar. O traço meticuloso do seu trabalho, repleto de cientificidade, teve o mérito de tornar as suas propostas incontornáveis para muitos dos estudiosos da história de Lisboa que se lhe seguiram. Por esta razão, Augusto Vieira da Silva é um dos autores mais apreciados pela academia e com mais impacto na olisipografia científica.

De todos os sucessores de Júlio de Castilho, Gustavo de Matos Sequeira foi o olisipógrafo que mais se aproximou do mestre, na medida em que elegeu como área de estudo vários campos disciplinares que perpassam, tanto a história e a arqueologia, como o teatro, o traje e a literatura. Em paralelo com a produção escrita, foi consultor da CML para os assuntos históricos e culturais e organizou diversas exposições e recriações históricas da cidade, das quais salientamos a reconstituição da Lisboa Antiga (LOURENÇO, 2022) e a famosa Maqueta da Lisboa pré-terramoto de 1755.

Por último, refira-se o olisipógrafo Norberto de Araújo (1889-1952), cuja formação jornalístico-literária cunhou o seu trabalho e orientou-o metodologicamente. Esta caraterística pode-se observar na sua produção escrita sobre Lisboa, fortemente norteada pelo tom coloquial e noticioso que tornou a mensagem acessível e apelativa, convidando e cativando o leitor a percorrer as ruas de Lisboa e a embrenhar-se na sua história. Curiosamente, a obra mais célebre deste olisipógrafo intitula-se Peregrinações em Lisboa, num claro convite à deambulação pela cidade e à descoberta das suas relíquias históricas (ARAÚJO,           1938-1939). O trabalho que Norberto de Araújo desenvolveu em prol da cidade fundamentou o convite do Grupo Amigos de Lisboa, do qual era associado, para dirigir o “Pavilhão de Lisboa” na Exposição do Mundo Português (1940), projetado pelo arquiteto Luís Cristino da Silva (1896-1976) com colaboração de Jaime Martins Barata (1899-1970).

O contributo dos primeiros olisipógrafos foi louvado e potenciado na famosa Exposição Olisiponense, realizada em 1914 pela Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portugueses, no Museu Histórico do Carmo, em Lisboa. Esta exposição foi o culminar de todo o trabalho desenvolvido até então, traduzindo o interesse crescente pelos estudos olisiponenses que doravante prosperaram com maior fulgor, expressão e intensidade.

De igual modo, o Grupo Amigos de Lisboa constituiu também um ponto charneira na engrenagem da olisipografia. Intrinsecamente associada aos primeiros olisipógrafos desde a sua fundação (1936), esta associação tem tido como principais linhas orientadoras a defesa do património artístico e documental de Lisboa. A ligação à cidade fez-se a vários níveis, dos quais salientamos as visitas guiadas, a organização de conferências, as edições de livros e a publicação do incontornável boletim Olisipo, dirigido por Gustavo de Matos Sequeira ao longo de 93 números, e que foi um veículo importantíssimo no desenvolvimento e na divulgação dos estudos de Lisboa.

Todavia, e embora a Exposição Olisiponense e o Grupo Amigos de Lisboa tenham sido fundamentais na afirmação da Olisipografia, foi com o trabalho de Luís Pastor de Macedo, enquanto vereador (1932-1935) e vice-presidente (1947-1959) da CML, que esta ganhou definitivamente maior amplitude e visibilidade. No desempenho deste cargo camarário potenciou, por vontade e diligência suas, a afirmação dos estudos olisiponenses no contexto cultural e intelectual lisboeta. De resto, o encadeamento das ações e decisões que tomou espelham inequivocamente a visão que sempre teve para os estudos históricos da cidade de Lisboa e que resultaram no aparecimento do próprio conceito da olisipografia, em 1933. Nesse ano, Pastor de Macedo propôs a criação de um novo pelouro nos serviços culturais da câmara capaz de «formar um fundo especial de olissipografia na Biblioteca do Palácio Galveias» (MACEDO, 1933: 55). Na década seguinte, o vereador e também olisipógrafo, estruturou uma narrativa que teve o mérito de afirmar a olisipografia no contexto dos estudos históricos da cidade de Lisboa, e sobretudo de lhe conferir uma linhagem histórica com início em Júlio de Castilho, daí em diante o irrevogável mestre da olisipografia.

Com a criação dos serviços culturais (1933) da CML, a Olisipografia afirma-se e ganha um novo fulgor, ao interessar a um domínio cada vez mais alargado da cultura e da sociedade lisboetas. Esta nova visibilidade alavancou-se numa forte aposta na reedição e publicação de obras sobre a cidade, na organização de exposições, e na celebração de efemérides. Porém, o sucesso desta iniciativa só foi possível de alcançar porque Pastor de Macedo, sabiamente, recrutou Matos Sequeira, Augusto Vieira da Silva e Norberto de Araújo, as três figuras-chaves do seu plano, que nele colocaram todo o seu vasto conhecimento e amor por Lisboa. Ademais, Pastor de Macedo também potenciou e alavancou a concretização da sua ideia por via do importante e incontornável Grupo Amigos de Lisboa, através de uma ação de manifesta complementaridade, que conferiu um grande dinamismo aos estudos e ao conhecimento de Lisboa.

Raquel Seixas
Julho 2023


Bibliografia

ARAÚJO, Norberto – Peregrinações em Lisboa. Lisboa: A. M. Pereira, 1938-1939, 15 volumes.

BRITO, José Gomes – Ruas de Lisboa: notas para a história das vias públicas lisbonenses. Lisboa: Sá da Costa, 1935, 3 volumes.

CARVALHO, João Pinto de – Lisboa de Outrora. Publicação póstuma, coordenada, revista e anotada por Gustavo de Matos Sequeira e Luís Pastor de Macedo. Lisboa: Grupo de Amigos de Lisboa, 1938-1939, 3 volumes. Disponível em: https://purl.pt/717

CASTILHO, Júlio – Lisboa Antiga. O Bairro Alto de Lisboa. Lisboa: A. M. Pereira, 1879.

CASTILHO, Júlio – Lisboa Antiga. Bairros Orientais. Coimbra: Imprensa da Universidade; Lisboa: Livraria Ferreira, 1884-1890, VII tomos.

CASTILHO, Júlio – Lisboa Antiga. A Ribeira de Lisboa. Lisboa: Imprensa Nacional, 1893.

CASTILHO, Júlio – Lisboa Antiga. O Bairro Alto. 3ª ed. dirigida, revista e anotada por Gustavo Matos Sequeira. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1954, vol. I.

LOURENÇO, Tiago Borges – A Lisboa Antiga de Matos Sequeira: reconstituição de um trecho da antiga cidade nas Festas de 1935. Cadernos do Arquivo Municipal, 2ª série, nº 18 (2022) pp. 1-26. Disponível em: https://cadernosarquivo.cm-lisboa.pt/index.php/am/issue/view/3

MACEDO, Luís Pastor de – Serviços Culturais. Exposição apresentada à Ex.ma. Câmara. Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, nº 7 a 10 (1933) p. 55. Disponível em: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Anais/N7_10/N7_10_item1/P1.html

MACEDO, Luís Pastor de – No descerramento de uma lápida na casa onde nasceu Tinop. Olisipo, nº 27 (julho 1944) pp. 145-150. Disponível em: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/Olisipo/1944/N27/N27_item1/index.html